Pela primeira vez irei publicar um post nete blog, que teve ontem o seu primeiro dia de vida. Depois daquele primeiro post, absolutamente marcante e comovente, não me resta mais nada a não ser assinar por baixo daquilo que o Carlos "Petrucci" escreveu. Também gostava de acrescentar que o espírito de Só Fazia Era Merda estará sempre presente neste blog, bem como nas memórias das pessoas que o conheceram e aqui escrevem. R.I.P. my friend.
Vocês devem-se estar a perguntar: "Mas de que trata o blog?" Respondo a isso de forma simples. Tendo em conta que os criadores, bem como os cronistas, são pessoas de inteligência acima da média, postaremos aqui no GROSSO Modo apenas coisas que vos façam pensar, reflectir e discutir.
Tendo em conta o trágico falecimento de Só Fazia Era Merda, um grande orador, gostava de vos apresentar um poema de Luís Falcão, professor e poeta. O Luís, além de também ser um excelente orador, é igualmente um poeta em ascensão. O poema que vos trago hoje pode-vos parecer triste, mas é a nossa derradeira e mais sentida homenagem a esse grande Homem.
ocupei o dia com pequenas tarefas
para silenciar um pedido uma súplica
(..)
esperando que um vento frio
dispa de folhas todos os ramos
um dia hei-de pensar no teu rosto
com um dedo que feche pálpebras
e direi
extinguiu-se a minha adoração
e nunca mais procurarei
os vestígios dos teus passos no mundo
percebo demasiado tarde
que a vida é apenas isto
um lugar de abandono
com ciprestes na beira da estrada
nunca foi diferente, por meu, tenho apenas
o vento de outono, as tílias destruídas
e a dolorosa certeza de em tudo ter falhado
quando te afastas
uma fina poeira de gelo
cobre os ramos de todas as árvores
e delicadamente
atravessas os destroços
em que deixas tudo o que amaste
não te demores no meu rosto
habita-o uma despedida
um mundo de onde Deus se ausentou
não sei dizer de onde chegam as tuas mãos
mas essa luz não pertence a este mundo
só dedos assim tão finos
poderiam penetrar a espessura da noite
trazendo ainda frescas umas gotas da manhã
sentir o cair das folhas
como uma advertência íntima
o primeiro passo para um encontro
um regresso ao coração
a primavera prossegue
com outras palavras
o discurso ruinoso do inverno
estávamos juntos
mas o meu coração afastava-se em silêncio
como se esperasse a chegada da neve ou de Deus
fizeste da tua vida
uma catedral abandonada
horas esquecidas
em adoração nocturna
pedindo silêncio
a tudo o que perdeste
(..)
o mundo inteiro irreconhecível
o amor a arder por entre as rosas
a chuva no teu rosto é um milagre de cristais
não conheço um relâmpago que não nasça nos teus olhos
a minha vida
caindo
como neve na escuridão
(..)
caminhamos para o silêncio
e para a escuridão indefinível dos bosques
luis falcão, in 'pétalas negras ardem nos teus olhos'
editora assírio & alvim, 2007
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
1 comentário:
Um poeta brilhante que faz-nos sentir o mesmo que sentiu ao escrever este poema... Arrepiante!!
Enviar um comentário